. Algumas palavras devidas ...
. Perder nas urnas, ganhar ...
. Em Espanha, aqui tão pert...
Embora considere o “Bem-vindos ao Século XXI” um exagero poético e o “Bem-vindos ao Século XIX” de Rui Ramos um acto de ressentimento, e pensando que mais rigorosamente alcançámos “os anos 70” do Século XX de muitos países europeus, eu seria um dos últimos portugueses a apoucar o extraordinári0 significado e impacto da vitória do «sim» no passado domingo.
A respeito deste tema, bem me apeteceria alinhar algumas reflexões complementares e anotar algumas precisões e rectificações, apesar de não considerar que, na história nacional, tenha passado a haver um antes e um depois do referendo, até porque não tardará muito que reapareçam sérios problemas de fundo da sociedade portuguesa em que as clivagens e arrumações de forças serão bem distintas das verificadas na apaixonada batalha pela despenalização da IVG.
Entretanto, nesta matéria, só não posso adiar a afirmação de que, na quarta-feira, Rui Ramos (R.R.) se equivocou manifestamente quando sentenciou nestas páginas que “nos distritos onde o «sim» ganhou, foi nos concelhos das capitais de distrito que o «não» obteve resultados acima da média”, logo concluindo que “no Sul, o «não» é urbano”. Ora, a verdade irrefutável é que isso apenas aconteceu em 6 dos 11 distritos onde o «sim» ganhou e, ainda assim, esse facto não prova aquilo que R.R. julga provar. Pela cristalina razão de que, em todos e em cada um dos 11 distritos em que o «sim» ganhou, houve concelhos (no total 81) que não são capitais de distrito e onde o «não» teve resultados superiores aos que alcançou nas capitais de distrito. E assim, seguindo os próprios critérios escolhidos por R.R., a conclusão a tirar só podia ser a de que no Sul o «não» seria predominantemente “rural”.
Mas, concedendo um curto descanso ao referendo, hoje pretendo sobretudo não passar ao lado da manchete do PÚBLICO do passado sábado que, com base em escutas feitas em Dezembro de 2005 a Domingos Névoa, proclamava que “Bragaparques não considerava PS e PCP obstáculo a negócio”, acrescentando-se na peça de desenvolvimento que aquele empresário afirmara então que “o PCP não pode fazer nada, nada”, “está ali quieto e calado”e “em banho-maria”.
Porque as manchetes têm a força que se sabe e porque pode haver quem pense que o administrador da Bragaparques, não sabendo estar a ser escutado, pode ter falado verdade, importa recapitular um conjunto de factos esclaredores.
Com efeito, importa recordar que foi em reunião camarária de 4-2-2005, ou seja a oito meses das eleições que deram a vitória à lista dirigida por Carmona Rodrigues e que permitiram a eleição de José Sá Fernandes pelo BE, que o PCP votou sózinho contra o hegócio entre a CML e Bragaparques da permuta de terrenos do Parque Mayer e da Feira Popular em Entrecampos.
Importa também relembrar que foi em 1-3-2005 que, na Assembleia Municipal em que a direita estava em minoria, foi aprovada uma deliberação indispensável à viabilização do citado negócio, com os votos a favor do PSD, do CDS, do PS, do BE e com o voto contra do PCP.
E, por fim, importa reavivar que, face a patentes irregulariedades e fortes suspeitas de ilegítimo favorecimento da Bragaparques, em 1 e 6-8-2005, o PCP apresentou múltiplas participações ao Procurador junto do Tribunal Administrativo de Lisboa, à Polícia Judiciária, à Procuradoria-Geral da República, à IGAT e ao Tribunal de Contas, invocando a lesão do interesse público na citada permuta e na hasta pública de parte dos terrenos de Entrecampos realizada com a atribuição à Bragaparques de um direito de preferência que não tinha sido objecto de qualquer válida deliberação municipal.
Com tudo isto já decorrido ou em tramitação legal, tenho uma inegável dificuldade em perceber para que é que o alegado corruptor Domingos Névoa precisava de tentar subornar José Sá Fernandes. Fico porém feliz que um eventual corruptor tenha chegado sim à avisada conclusão de que, em relação a algumas pessoas e a uma força política, nem vale a pena tentar suborná-las ou corrompê-las.